Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

No meu Palato

No meu Palato

Maison Albar – Le Monumental Palace Hotel | O arquétipo incoercível dos afectos

"Não há nada como a respiração profunda depois de dar uma gargalhada. Nada no mundo se compara à barriga dorida pelas razões certas." Rosecran Baldwin

Maison Albar - Le Monumental Palace HotelTodos nós já ouvimos falar da Atlântida, um continente insular há muito tempo "perdido", construído em mármore e muitas vezes idealizado como uma sociedade utópica. Esta lenda cativou sonhadores, poetas e artistas através de várias gerações. Na busca apaixonada por este continente desaparecido muitos aventureiros perderam fortunas, outros a razão, e alguns ... a própria vida. 

Maison Albar - Le Monumental Palace HotelAo contrário de muitas lendas cujas origens se desvaneceram nas brumas do tempo, hoje em dia, sabemos exactamente quando, como e onde o mito da Atlântida surgiu. A história foi contada pela primeira vez em dois dos diálogos de Platão, o "Timeu" e o "Critias", escritos por volta de 360 a.C., ou seja, há mais de 2000 anos. 

Maison Albar - Le Monumental Palace HotelSegundo este filósofo, quando os Deuses dividiram entre si o mundo, Atena recebeu Atenas, e Poseídon a Atlântida, uma enorme ilha-continente. Poseídon viveu aí com uma jovem mortal, Clito, de quem teve dez filhos. O mais velho, de seu nome Atlas, dividiu a ilha em dez Estados, que distribuiu por si e pelos irmãos.  Estas ilhas exuberantes continham ouro, prata, oricalco (uma liga metálica de belos reflexos cor de fogo) e outros metais preciosos, exibindo ainda uma abundante, rara e exótica vida selvagem. 

Maison Albar - Le Monumental Palace HotelCom o decorrer dos tempos, estes seres, metade humanos, metade Deuses, foram conquistando territórios vizinhos e tordando-se cada vez mais gananciosos. Além disto, estavam a assumir-se como uma potência naval, e portanto cada vez mais perigosos para os verdadeiros Deuses. Para resolver este problema, Poseidon, já casado com outra Deusa,  Anfitrite, e pondo de parte a sua paixão anterior por uma humana mortal, organizou um concílio dos deuses. O resultado deste conclave?

Maison Albar - Le Monumental Palace HotelQue os habitantes deveriam sofrer um castigo severo, que se consumou na destruição da Atlântida. Inicialmente houveram terramotos que provocaram grandes incêndios, dando origem a um tsunami que inundou o continente. Como as montanhas da Atlântida eram grandes, os cumes ficaram à superfície, originando as nove ilhas dos Açores. A descoberta fortuita por parte de um pescador, em 2013, de uma pirâmide submersa nos Açores, com 60 metros de altura e 8000 mde base, veio adensar a convicção de que o "continente perdido" havia sido encontrado em mar Português. 

1.JPGApesar de Platão defender que a Atlântida já existia cerca de 9.000 anos antes da sua época (ou seja, há mais de 11 mil anos) e dos seus escritos serem os únicos registos conhecidos da existência desta civilização, muitos cientistas defendem que a lenda da Atlântida é "lógica", já que as cheias apocalipticas e as explosões vulcânicas têm vindo a acontecer frequentemente ao longo da história, e por isso outras localizações têm sido discutidas, nomeadamente o Triângulo das Bermudas, Santorini, o estreiro de Gibraltar e até a Antártida.

Maison Albar - Le Monumental Palace HotelEu, como profundo conhecedor destas coisas, vou adensar esta discussão sugerindo uma nova localização para a Atlântida (pelas fotos já devem de ter percebido qual é;)): O Porto, mais concretamente o Maison Albar – Le Monumental Palace Hotel, aliás, para além de defender vou dar provas fotográficas irrefutáveis da minha tese.  ;)

Maison Albar - Le Monumental Palace HotelEste hotel veio trazer ao Porto um conceito inovador que combina na perfeição a monumentalidade arquitectónica do edifício e a história da cidade, com a elegância e estilo franceses, materializado numa contemporaneidade cosmopolita. Ostenta, com orgulho, um ambiente muito próprio. Se, por momentos, deixarmos de olhar para os Aliados somos tele-transportados para uma cidade não tão utópica quanto a Altantida, mas igualmente encantadora: Paris - através do design, dos cheiros, dos sabores e dos sons.

Maison Albar - Le Monumental Palace HotelCom uma imponente fachada gótica, lá dentro ainda estão guardados alguns elementos e características originais do antigo edifício de 1923 (que acomodou um dos mais míticos cafés da cidade: o Café Monumental), como o corrimão da escadaria ou a grandiosidade do pé-direito, que lhe conferem a monumentalidade, elegância e o espírito do ambiente Art Déco e Art Nouveau, icónico da década de 30 do século passado. Nas suites predominam o conforto, a elegância, os materiais nobres, o ferro forjado e a luz natural que perfumam o ambiente com a finesse do estilo francês.

Maison Albar - Le Monumental Palace HotelTudo “transpira” luxo, requinte e bom gosto, desde os candeeiros exuberantes, à utilização de imponentes mármores portugueses, passando pela particularidade das alcatifas. Percebe-se que houve uma selecção criteriosa em que cada detalhe foi pensado e cada objecto enquadrado. A reforçar toda esta temática, os corredores de acesso aos quartos fazem-nos lembrar as carruagens do Expresso Oriente, mas sem crime. ;)

Maison Albar - Le Monumental Palace HotelJá conhecíamos os outros espaços gastronómicos do hotel, desta vez concentrámos o palato no majestoso Monumental Café, dedicado ao melhor da cozinha francesa temperada com alma portuguesa e com assinatura do Chef Julien Montbabut, que veio de Paris (onde conquistou uma estrela Michelin no Le Restaurant) para abraçar este projecto.

Maison Albar - Le Monumental Palace HotelNesta brasserie ao estilo parisiense, que ainda hoje nos conta a história do antigo e prestigiado café que um dia ali marcou presença, encontramos uma cozinha super-saborosa e muito bem harmonizada, quer com uma selecção cuidada e criteriosa de vinhos quer com cocktails clássicos e de autor.

Maison Albar - Le Monumental Palace HotelEste é um espaço, que merece por si só a visita. A Bia deliciou-se com as propostas culinárias, alternado o “estou cheia” a finalizar cada prato como um “hum, afinal já não estou tão cheia” com o início do próximo. 😉 O que nos chegou à mesa foi o resultado de um misto de produtos regionais frescos, de sabores puros onde as características de cada elemento se fazem sentir, (mas de forma harmonizada não abafando os restantes) e de técnicas contemporâneas. Tudo com muita qualidade.

Maison Albar - Le Monumental Palace HotelAdorei a originalidade dos croquetes de sardinha de São João (só faltaram os martelos e fogo de artificio;)), a frescura levemente untuosa do gaspacho verde e tosta de requeijão, a complexidade surpreendente e ligeiramente irreverente do bacalhau com lima, feijão frade estufado e lula salteada e o exagero gulosamente ponderado da panacota de frutos vermelhos. Há ainda um menu Express de almoço, por apenas 16 euros (3 pratos) tem um preço ridiculamente baixo para a qualidade daquilo que nos é servido. 

Maison Albar - Le Monumental Palace HotelDesde ontem existe ainda mais um motivo enogastronómico para visitar o Maison Albar – Le Monumental Palace Hotel, o restaurante Le Monument reabriu, e nesta primeira fase de reabertura estará numa versão pop-up do restaurante gastronómico, com funcionamento ao jantar às quintas, sextas e sábados.

Maison Albar - Le Monumental Palace HotelNesta versão inovadora  existirá um menu de degustação de 14 momentos inspirado nos produtos locais de algumas regiões do país e nas inspirações proporcionadas pelas viagens realizadas nelas. Trará para a mesa, com certeza,  uma viagem sensorial única, para a qual já temos "bilhete reservado". ;)

Maison Albar - Le Monumental Palace HotelTambém o pequeno-almoço sofreu alterações nesta altura de pandemia, em que quem sai beneficiado é o cliente, servido à la carte é possível deliciarmos-nos com deliciosas propostas como a tosta de abacate, torradas francesas, mousse de iogurte, mel e noz e, como não poderia faltar, ovos mexidos com bacon grelhado acompanhado por um belo espumante português ;)

Maison Albar - Le Monumental Palace HotelTivemos ainda a oportunidade de conhecer o Le Monumental Nuxe Spa (muito provavelmente o melhor do país) que proporcionou à família verdadeiros momentos de alegria, prazer e divertimento, num ambiente sofisticado, acolhedor, fino e seguro.

Maison Albar - Le Monumental Palace HotelAcho que as imagens falam por si…O melhor que vos posso dizer é que nos sentimos seguros, protegidos, privilegiados, bem tratados e em família. Para finalizar, e como o prometido é devido, se olharmos com mais atenção para este Palácio, surgem apontamentos, discretos mas presentes, que sugerem uma misteriosa ligação à Atlântida...

Maison Albar - Le Monumental Palace HotelUma lareira com a imagem de Anfitrite e Poseidon, tridentes, conchas, mármores, o tal do oricalco, o SPA construído em forma de templo marítimo e até o próprio simbolo da Maison Albar Hotels.

Maison Albar - Le Monumental Palace HotelAliando todos estes detalhes a um lugar quase irreal e utópico, de um luxo autêntico e personalizado, que permite viver o tempo, o espaço e os afectos, com calma e sem pressas, podemos concluir que ali se respira, pelo menos, um pouco da magia da Atlântida. Saímos de lá com a barriga dorida ... mas pelas razões certas. ;)

Maison Albar - Le Monumental Palace HotelObrigado Diogos, Pedro e Andreia, até breve. Sou muito mau a decorar nomes, se fixei estes é porque tudo correu mesmo muito bem 😉👨‍👩‍👧‍👦🙏

Umas palavras especiais para o Diogo Matos, por onde passa deixa sempre um "rasto" de saber fazer com qualidade, requinte afectivo, empenho, dedicação e excelência, parabéns ;)

 

 

Valados de Melgaço | Cada um pode ser muita gente

"Agir, eis a inteligência verdadeira. Serei o que quiser. Mas tenho que querer o que for. O êxito está em ter êxito, e não em ter condições de êxito. Condições de palácio tem qualquer terra larga, mas onde estará o palácio se não o fizerem ali?" Fernando Pessoa

Vallados de MelgaçoA casta Alvarinho pode ser olhada sob dois diferentes prismas, quase antagónicos, se por um lado está entre as mais bem pagas do nosso país, por outro, ainda há quem a cheire com um certo preconceito devido à sua associação (errada) com vinhos demasiado simples, directos, frutados e para consumo imediato. Quando comecei a beber vinho com regularidade (no inicio da Universidade) adorava vinho verde, especialmente o Alvarinho. Passados uns anos ganhei um certo desinteresse pelos verdes, e nos últimos 5 anos apaixonei-me completamente pela região e pela casta. 

Vallados de Melgaço Muitos amigos enófilos consideram a Alvarinho a melhor casta branca do nosso país (só não lhes dou razão porque na minha opinião, tem de partilhar essa distinção com a Encruzado, num perfil completamente diferente). Possui uma enorme versatilidade, é muito interessante ao nível da harmonização com a comida e tem a capacidade de envelhecer graciosamente. Enquanto jovens, os Alvarinhos são aromáticos, refrescantes e caracterizam-se pelos aromas intensos de fruta (citrinos ou tropical) e flores. 

Vallados de MelgaçoSão crocantes, suculentos e transportam aromas de limão, lima, pêssego, maracujá, lichia, casca de laranja, jasmim e flor de laranjeira. Com a idade, alguns Alvarinhos tornam-se mais cheios, complexos e ricos.  Já encontrei alguns com notas de mel, petróleo, minerais e fumo. Por tudo isto, "a Alvarinho pode ser muita gente", sendo aquilo que vai ser determinado pelos métodos de cultivo das vinhas, dos tipos do solo, da proximidade, ou não, do rio, do clima e da arte e engenho dos enólogos e viticultores. 

Vallados de MelgaçoA todos estes predicados a Valados de Melgaço acrescenta conhecimento e tradição familiar, de várias gerações, na produção de uvas e vinhos de qualidade na Quinta de Golães.  Produz vinhos com personalidade, elegância e harmonia que revelam toda a magia da casta Alvarinho e do terroir de Monção e Melgaço. São também um excelente exemplo da alma camaleónica da casta Alvarinho. 

Vallados de MelgaçoO Valados de Melgaço Vinificação Natural 2016 (16 €, 89 pts.), dourado palha na cor, exibe no nariz casca de laranja desidratada, damasco, resina picante e pinho. No palato é fresco, mineral (granito partido), persistente, encorpado e bastante longo.  

 

Vallados de MelgaçoPara acompanhar um Feijão frade com lima, bacalhau confitado e gamba grelhada nada melhor que o Valados de Melgaço Alvarinho Reserva 2017 (16 €, 88 pts.). De cor amarelo-citrino é bastante completo no aroma. Desde a lima ao jasmim, passando pela lichia e pelo maracujá. Há ainda, em segundo plano, abacaxi, laranja confitada e flor de limoeiro. Na boca é fino, envolvente, preciso, elegante e de corpo cheio.

IMG_1336.JPGA maior surpresa surgiu com o espumante Valados de Melgaço Alvarinho Reserva Bruto 2016 (19 €, 91 pts.). Trajando um amarelo-citrino tem uma bolha muito delicada, emanando deliciosos aromas a relva acabada de cortar, abacaxi, maçã verde e um ligeiro brioche. Na boca é super elegante, aveludado, crocante e super fresco. 

Vallados de MelgaçoUm espumante muito fino, coerente, complexo e que cresceu na companhia de um Bolo de bolacha molhada em Alvarinho. Esta pequena história, da uva que queria ser território,  contada através de três vinhos, começada pelo que tem uma expressão mais genuína do terroir, seguida pelo mais elegante e culminada no mais exuberante, mostra que a Alvarinho pode ser o que quiser, desde que queira e a deixem ;)

 

Feijão frade com lima, bacalhau confitado e gamba grelhada

 

Bolo de bolacha molhada em Alvarinho

 

Quinta da Leda 2017 | Ensaio sobre um terroir

"Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos." José Saramago

Quinta da Leda 2017Costuma-se dizer que um grande escritor, daqueles que ficam para a história, tem de escrever um livro imortal, e isso é regra para quase todos os génios literários, Saramago tem dois: O memorial do convento e o Ensaio sobre a cegueira.  Ambos os livros têm aquelas características que os tornam viciantes, e que normalmente fazem com que entrem para o lote dos meus favoritos: são sérios, mas com muito e bom humor; são filosóficos mas não são chatos e são fantasiosos sem serem ridículos.

Quinta da Leda 2017Além disso, são livros inteligentes, perspicazes, honestos e muito bem escritos. N'O ensaio sobre a cegueira, vamos-nos apercebendo que uma epidemia (os génios têm esta coisa chata de se quererem manter actuais ;)) de cegueira está a devastar uma cidade e, a partir dessa premissa, Saramago aborda toda a natureza humana: o amor, a lealdade, o medo, o ciúme, a bravura, o heroísmo, a covardia, a violência, a felicidade e a decepção.

Quinta da Leda 2016Tal como acontece no Memorial do convento, este é um livro que parece ter tudo. As personagens desta historia são tão sedutoramente renderizadas, tão vibrantes, tão próximas de nós, que à medida que vamos folheando o livro, vamos-nos juntando, pouco a pouco, a essa seita cega de Saramago. 

Quinta da Leda 2017Não vou esmiuçar mais o livro, para não revelar o enredo completo a quem ainda não o leu, mas a parte importante, e que me fez escolher esta obra-prima para vos falar do Quinta da Leda 2017, é a de que o escritor estabelece uma relação bastante próxima e curiosa entre a antevisão de um hipotético desastre  e a epifania das nossas características mais puras, sendo elas boas ou más. 

Quinta da Leda 2017O ano de 2017 no Douro, tinha tudo para originar uma dessas fatalidades anunciadas:  invulgarmente quente e seco, com temperaturas 5 graus acima do habitual e precipitação cerca de 50% abaixo do expectável. Estas condições influenciaram a maturação das uvas, o que resultou numa das vindimas mais precoces de que há memória, com início no dia 7 de Agosto para os brancos e dia 22 do mesmo mês para os tintos.

Quinta da Leda 2017Todos nós já ouvimos histórias de enólogos em férias, com a necessidade de interromperem as mesmas a fim de regressarem rapidamente ao Douro para a vindima.  No entanto, o infortúnio  não se confirmou, muito pelo contrário, estas condições agrestes deram origem a vinhos muito densos, concentrados, com boa acidez e excelente capacidade de envelhecimento. Como é óbvio, sem deixarem de ter as características de um ano quente.

Quinta da Leda 2017O Quinta da Leda 2017 (40 €, 94 pts.) é um excelente exemplo de um vinho com esse perfil. No copo traja um rubi muito denso, revelando no nariz esteva, violetas, resina, pinheiro, cedro, charuto, pimenta preta, ameixa vermelha e um suave abaunilhado. No palato preenche a boca, está muito bem estruturado, exibe uma acidez bem integrada (embora menos presente que em 2016) e os taninos estão bem aguerridos mas a arredondar.

Quinta da Leda 2017O final de boca é intenso, longo, harmonioso e surpreendentemente elegante, tendo em conta as condições em que as uvas amadureceram. Tais características apenas são possíveis de alcançar nos heterogéneos 170 hectares de vinha da Quinta da Leda, onde diferentes altitudes e exposições se complementam, dando origem a coisas bonitas como este Quinta da Leda 2017.

Quinta da Leda 2017Porque muitas vezes, na maior parte das vezes, estas arestas da vida servem apenas para evidenciarem que dentro de nós há uma coisa que não tem nome e que nos ajuda a suplantar as condições mais agrestes. Nos vinhos, pelo contrário, essa coisa tem nome, chama-se terroir ;) 

O Leda 2017 combinou muito  bem (terá sido uma das melhores harmonizações que fiz) com um bife tomahawk (de 1.5 kg) e vegetais grelhados

 

Bife tomahawk e vegetais grelhados:

-Nesta receita não há que inventar muito, basta escolher um bom corte de carne e alguns vegetais para mais tarde serem grelhados no carvão, adicionado apenas sal e pimenta.